A TRAGÉDIA QUE ENLUTOU A AFURADA

Fev 27, 2014 | NOTÍCIAS

Evocação do dia 27 de Fevereiro de 1892

 

No dia 27 de Fevereiro evoca-se a grande catástrofe ocorrida no mar, ao largo da Póvoa de Varzim e que atingiu as comunidades piscatórias da Póvoa de Varzim, Matosinhos e Afurada. Da tragédia resultou o naufrágio de quatro lanchas poveiras (perdidas no alto mar, ou despedaçadas contra a praia das Cachinas) e três lanchas da Afurada, em que pereceram 105 pescadores, sendo 70 da Póvoa de Varzim e 35 da Afurada.

 

Esta catástrofe, ainda hoje lembrada pelas gentes da Afurada, é recordada na toponímia local, como nome de rua. Não haverá família que não tenha perdido algum dos seus entes queridos, tal o número de mortos, de feridos, de viúvas e de órfãos decorrentes do mais trágico acontecimento que enlutou a comunidade piscatória desta freguesia gaiense.

 

Atente-se ao relato da imprensa gaiense da época:

 

“Horrível desgraça.

 

Todos os nossos leitores, decerto, estão ao facto da horrível desgraça que sucedeu no sábado passado no nosso mar, onde se calcula pereceram 105 pescadores, pertencentes ao lugar da Afurada, Matosinhos e Póvoa de Varzim, ficando por esse motivo mães sem amparo, as viúvas sem arrimo, e filhos sem pão. Não há memória duma desgraça tamanha”. («O Grilo de Gaia», p. 2)

 

Das seis lanchas que haviam saído da Afurada para o mar, no dia 26 de Fevereiro, foram três as naufragadas, a saber: a “S. Pedro” que levava 24 homens e perdeu toda a tripulação, a “Senhora da Hora” que levava 20 homens e perdeu 9 e a “Senhora do Carmo”, que levava 23 homens e perdeu 2.

 

 

RELAÇÃO DAS VÍTIMAS DA AFURADA:

 

NOME – (Alcunha) – Idade e número de filhos

António Correia Regalado (Barbado) – 33 – 5

António Domingues (Perdido) – 52 – 7

António Gomes Remelgado (Cheta) – 29 – 3

António Gomes Remelgado (Manco) – 42 – 1

António Gomes Remelgado (Moreira) – 29 – 2

Bernardo da Silva do Mar (Lança) – 44 – 3

Caetano Domingues Ramos (Moleiro) – 27 – 3

Domingos José ( Palhaço) – 38 – 5

Domingos d’ Oliveira Granja (Rato) – 24 – 1

Francisco José da Silva Barreiros – 39 – 1

Francisco Ferreira de Bastos (Chibante) – 31- 2

Francisco Rodrigues Cação Junior (o da Clara) – 32 – 1

João Evangelista (Porrão) – 25 – 2

Joaquim Ferreira dos Santos (Paçô) – 26 – 4

Joaquim Pereira (Simplicio) – 28 – 4

José Antonio Novo Remelgado (Rifão) – 28     – 7

José Antonio Remelgado (Manco)  – 26 (solteiro)

José Antonio Valente (Costa) – 28 – 3

José Correa Regalado – 27 – 3

José Ramos (Moleiro) – 31- 1

José Ferreira Patricio (Taineta) – 34 – 2

José Gomes Remelgado (Moreira) – 35 – 5

José Gomes Remelgado – 29 – 0

José Leonel Maria (Figueiredo) – 23 – 0

José Maria Composto – 30 – 4

José d’ Oliveira Granja Junior (Rato) – 27 – 4

José de Pinho Girnes (Pesadelo) – 28 (solteiro)

José Rodrigues Cação (o da Clara) – 35 – 2

Manoel Bernardo da Silva (Bucho)

Manoel Ferreira Neto (Piloto) – 34 – 5

Manoel José da Clara

Manoel Mathias – 50 – 0

Manoel d’ Oliveira Granja (Rato) – 38 – 3

Manoel Valente (Costa) – 43 – 5

Marcelino de Barros Catharino (Sapateiro) – 25 – 3

Roque da Silva (Mano) – 40 – 2

Severino Correa Regalado – 29 – 4

 

Aquando das comemorações do centenário deste naufrágio, David Sucena, escrevia as quadras que se seguem, inspirado no livro de Óscar Fangueiro.

 

O NAUFRÁGIO DO 27 DE FEVEREIRO

 

27 de Fevereiro

uma data recordada,

de que temos como símbolo

uma rua na Afurada.

 

Numa grande tempestade,

esse naufrágio tão bruto.

Deixou pais desaparecidos

e tantos órfãos de luto.

 

E com a vela a bater,

de quando, em quando à rola,

lá iam para Ovar

e para o mar da Cartola.

 

Nestes 100 anos passados,

essa data tão lembrada.

Ficou sempre na memória,

na Póvoa e na Afurada.

 

E a remos e á vela,

lá partiram da Afurada.

Para o mar iam pescar.

Para a pesca da pescada.

 

Remelgado e Regalado,

esses nomes já lá vão.

Quem sabe se os de agora,

serão dessa geração.

 

Não existe cá ninguém

desse tempo e dessa era.

Mas todos sabemos bem

que eram filhos cá da terra.

 

Nesta Afurada vareira

há 100 anos, já lá vai!

Foi sempre assim tão useira,

de ter crianças sem pai.

 

David Sucena

 

In:

http://memoriasgaiensesbibliotecadegaia.blogspot.pt

http://caxinas-a-freguesia.blogs.sapo.pt

Tó Zé Baptista – Grupo de Animação Comunitária (Afurada)

Pin It on Pinterest

Share This